Refutando Susan Blackmore

 

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A psicóloga, cética, conferencista e partidária do CSI, Susan Blackmore, University of the West of England, Bristol, em The World Question Center, conta-nos como inicialmente se entusiasmou sobre o paranormal e a parapsicologia, mas acabou chegando à conclusão de que

 

Eu fiz as experiências. Eu testei telepatia, a precognição e a clarividência; atingi apenas resultados a nível do acaso. Treinei colegas estudantes nas técnicas do imaginário e testei-os novamente; resultados explicados pelo acaso. Testei gêmeos em pares; resultados ao acaso. Eu trabalhei com jogos em grupo e com crianças muito pequenas em escolas infantis (suas mentes naturalmente telepáticas não estariam ainda moldadas pela educação, veja você); resultados ao acaso. Eu treinei com um leitor de Tarô e testei suas leituras; resultados ao acaso... Ocasionalmente eu atingia um resultado significativo. Oh que excitação! Eu respondia como penso que qualquer cientista deveria responder, procurar por erros, recalcular a estatística e repetir os experimentos. Mas todas vezes eu encontrava o erro responsável ou não conseguia repetir os resultados...Parapsicólogos me chamam de uma ‘experimentadora psi-inibitória’, significando que não consegui atingir resultados paranormais porque eu não acreditava o bastante. Eu estudei os resultados de outras pessoas e encontrei mais erros, inclusive fraude direta. Quando terminei meu Ph.D., tornei-me uma cética.

 

Do outro lado da moeda, em Parapsychology and the Skeptics, Chris Carter, analisando o retrospecto de Blackmore na pesquisa psi, mostra-nos que o ceticismo dessa psicóloga não está definitivamente escorado na pesquisa parapsicológica por ela desenvolvida durante a década de 70.

 

Em várias publicações, Blackmore alega ter se tornado cada vez mais cética sobre a existência de fenômenos psi depois de "dez anos de intensa pesquisa na Parapsicologia". Essa alegação levou o parapsicólogo Rick Berger a examinar criticamente os experimentos de Blackmore bem detalhadamente, e ele encontrou que ‘a alegação de 'dez anos de pesquisa psi’ na verdade representa uma série de estudos apressadamente elaborados, executados e publicados os quais foram conduzidos principalmente durante um período de 2 anos". Esses estudos consistiram num conjunto de experiências realizadas entre outubro de 1976 a dezembro de 1978 para sua dissertação de PhD.

 

Blackmore divulgou 29 experiências completadas neste período de dois anos, das quais 21 foram eventualmente publicadas em cinco artigos de jornal de Parapsicologia como experiências separadas. 7 dessas experiências produziram resultados estatisticamente significativos. Embora essas experiências formem a base da reivindicação de Blackmore de "falhar em achar o paranormal", a probabilidade de 7 sucessos acontecerem, por acaso, em 21 tentativas é menos de 1 em 20.000!

 

Então, como Blackmore reconcilia estas 7 experiências bem sucedidas, no total de 21, com sua frequente alegação de que sua própria pesquisa a guiou a tornar-se uma cética? Simples: como Berger assinalou, Blackmore aplicou duas medidas para suas experiências. Quando suas experiências pareciam mostrar evidência de psi, os resultados eram considerados como devidos a falhas na experiência. Mas quando os resultados não pareciam mostrar a evidência de psi, ela simplesmente ignorava a qualidade do estudo.

 

Não por outra razão Berger qualificou o trabalho de Blackmore como negligentemente projetado:

 

As alegações de Blackmore de que seu banco de dados não mostra nenhuma evidência de psi são infundadas, porque a ampla maioria de seus estudos foi negligentemente projetada, executada e divulgada, e na própria avaliação de Blackmore, [seus estudos foram] individualmente defeituosos. Como tal, nenhuma conclusão deveria ser tirada deste banco de dados.... Blackmore é extremamente articulada ao depreciar a pesquisa psi em seus escritos, na televisão e no rádio, e à frente do grupo de advocacia cética CSICOP (o Comitê para a Investigação Científica de Reivindicações Paranormais), citando seu próprio trabalho como a base para suas fortes convicções... '[Ela] alcançou uma notável posição na comunidade cética baseada na sua conversão de crente à cética durante seus "dez anos de pesquisa negativa". Apesar de sua insistência ao contrário, eu acredito que minha resenha sobre sua pesquisa psi tenha alcançado um fim construtivo para mostrar que sua conversão de parapsicóloga a membro do CSICOP não teve nenhuma base científica no seu próprio trabalho experimental.

 

Carter em seguida salienta um importante ponto, diga-se, constantemente ignorado pelos negadores de psi:

 

Interessante examinar os escritos de Blackmore antes e depois da crítica de Berger...Após a crítica de Berger, Blackmore estava disposta a reconhecer num jornal acadêmico que 'eu concordo que não se pode tirar conclusões sobre a realidade de psi baseadas nestas experiências. Não obstante, os escritos na imprensa popular não refletem tal confissão’...Após tudo, Blackmore perseguiu um Ph.D. em Parapsicologia a fim de se tornar uma ‘famosa parapsicóloga’. Tendo falhado em produzir pesquisa que suporte a hipótese psi, ela evidentemente decidiu tentar fazer nome atacando a hipótese psi, o que, na época, deve ter lhe parecido um alvo mais fácil”.

 

No seu Persistent Denial: a Century of Denying the Evidence (em Krippner e Friedman, 2010), Carter complementa sua análise do comportamento de Blackmore, fazendo um balanço comparativo das atitudes dos céticos com o objetivo de traçar um perfil psicológico do crítico dogmático. Vejamos:

 

Um livro candidamente escrito pelo psicóloga clínica Elizabeth Mayer (2007) provê uma visão reveladora sobre a psicologia do crítico dogmático. Ao ler o livro fiquei várias vezes chocado com as semelhanças entre as opiniões de Mayer e a da crítica Blackmore. Em ambos os escritos dessas mulheres havia a mesma visão da ciência como um corpo monolítico de conclusões que nos conta com antecedência o que é ou não é possível.

 Há também o mesmo profundo medo das experiências psi. Blackmore (1996) teve que enfrentar o fato de que outros estavam relatando resultados positivos. Um dia, ela foi convidada para assistir a um experimento de telepatia envolvendo crianças:

Nós observamos durante algum tempo, e as crianças fizeram muito bem. Elas realmente pareciam estar recebendo a imagem certa mais frequentemente do que o acaso poderia prever. Eu comecei a ficar empolgada, mas ainda assustada. Isso realmente era ESP acontecendo bem na frente dos meus olhos? Ou havia uma explicação alternativa?...De alguma forma, eu simplesmente não conseguia aceitar que isso era psi, e eu, nos anos seguintes, continuei questionando sobre o método utilizado. Isso foi apenas uma perversidade? Uma recusa para aceitar minhas próprias falhas? Um profundo medo de psi? Fosse o que fosse, isso me deixou numa confusão constante. Eu simplesmente não parecia capaz de aceitar que outras pessoas poderiam encontrar psi, enquanto eu não. (P.88)

Da mesma forma, Mayer (2007) participou de um experimento ganzfeld como ‘receptora’ - uma participante que tenta adivinhar qual a imagem que o ‘remetente’ está tentando enviar - e escorou numa aparente combinação com o alvo a distância.

Naquele momento o mundo ficou estranho. Senti naquele ínfimo instante um medo avassalador. Ele se foi num piscar de olhos, mas era incrivelmente real. Foi diferente de qualquer medo que eu já senti. Minha mente dividiu...A sensação foi terrível. Minha mente tinha deslizado por debaixo de mim e o mundo ficou fora de controle (Pp.206-207).

 No entanto, ao contrário de Blackmore, Mayer não desistiu. Blackmore (2000) oficialmente alegou ter se aposentado da parapsicologia, reclamando que ‘eu apenas estou muito cansada, sobretudo, de trabalhar para manter a mente aberta’ (p. 55). Em vez disso, Mayer criou sua própria teoria psicanalítica do porquê tantos críticos descartam dogmaticamente todas as evidências de psi: a teoria freudiana do medo inconsciente, nesse caso, um medo de que nossas crenças possam estar incorretas. Perto do fim da sua vida, ela soube que psi não está descartada pela física contemporânea, e seu medo foi dissipado (p. 254).

 Hyman muitas vezes parecia mostrar uma atitude similarmente irracional. Schwartz (2002) relatou:

Professor Ray Hyman me disse, ‘eu não tenho controle sobre minhas crenças’. Ele tinha aprendido desde a infância que eventos paranormais são impossíveis. Hoje ele se encontra espantado que, mesmo em face de imponente teoria e de dados científicos convincentes, suas crenças não mudaram. Suas repetidas decepções com o passado de fraudes genuínas impedem-no de aceitar a ciência genuína de hoje (p. 224).

 Não há nada de racional sobre estar com medo de que nossas crenças possam estar parcialmente erradas. Também não há nada de racional na manutenção de crenças que são impermeáveis ​​à evidência. A qualidade dos dados na parapsicologia não é a questão: a verdadeira questão são as devastadoras implicações dos dados sobre um adorado sistema ideológico de crenças.

 

Irwin e Watt (2007), comentando a “hipótese do medo de psi”, de Charles Tart, acrescentam:

 

As motivações dos críticos da parapsicologia têm sido objeto de muitas especulações (por exemplo, LeShan, 1966; McConnell, 1977; Wren-Lewis, 1974). Críticos acreditam, sem dúvida, na racionalidade de suas posições contra a parapsicologia, porém isso, por si só, parece inadequado para dar conta da beligerância e da veemência dos seus ataques. Tart (1982) propõe que o comportamento dos críticos é alimentado por uma forte emoção inconsciente, um 'medo de psi'. Muitas pessoas ficam preocupadas que, caso psi realmente exista, a interação social seria perturbada, sua privacidade pessoal invadida e sua independência aberta à injusta manipulação por parte de outros. Para apoiar a hipótese de Tart, de que os críticos são motivados pelo medo de psi, Irwin (1985c) relatou uma significativa relação entre uma medida do medo de psi e a atitude do entrevistado frente a conveniência das pesquisas parapsicológicas.

 

Enfim, se Blackmore não concede apoio à hipótese psi, não o faz com base em suas pesquisas parapsicológicas, muito embora tenha assim alegado por tanto tempo. Como vimos, suas poucas incursões experimentais, de fato, demonstraram resultados positivos em favor de psi. Verificamos, desse modo, que seu discurso não é coerente, além do que, muitos dos seus escritos deixam escapulir uma rejeição da psi com base em elementos emocionais, e não a partir de um ponto de vista objetivamente científico. A perspectiva de um medo inconsciente da psi, nos moldes acima, parece ser uma explanação de seu comportamento.