O debate Sheldrake vs. Dawkins

 

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Clinton Richard Dawkins é um etólogo britânico, biólogo evolutivo, escritor, professor para Compreensão Pública da Ciência e membro emérito do New College, University of Oxford. Ele é um renomado ateu e bastante conhecido por suas críticas ao criacionismo e ao design inteligente. Comparavelmente aos demais críticos de psi, Dawkins não possui um extenso histórico de ataques à pesquisa psíquica, muito embora, “como um bom materialista”, nega publicamente a existência de comunicações anômalas e de psicocinese, consideradas por ele como algo sem sentido. Sua posição contrária a psi foi cristalinamente enfatizada por ocasião do debate televiso entre ele e o também renomado biólogo inglês Rupert Sheldrake. Vejamos.

 

Em Science Delusion (2012), Sheldrake conta que, em 2006, a companhia do canal 4 da TV britânica transmitiu uma severa crítica, de duas partes, de Richard Dawkins contra a religião, chamada The Root of All Evil? Logo depois, a mesma produtora, IWC Media, disse a Sheldrake que Dawkins queria lhe visitar para discutir a pesquisa sobre habilidades inexplicáveis de pessoas e animais para uma nova série de TV. Sheldrake comenta que

 

Eu fiquei relutante em participar porque eu esperava que seria tão unilateral como as séries anteriores de Dawkins. Mas a representante da empresa, Rebecca Frankel, assegurou-me que eles agora estavam com a mente mais aberta. Ela me disse: 'Estamos muito ansiosos para que seja uma discussão entre dois cientistas, sobre os modos científicos de inquérito'. Entendendo que Dawkins estava interessado em discutir a evidência e com a garantia escrita de que o material poderia ser editado com justiça, eu concordei em encontrá-lo e nós fixamos uma data. Eu ainda não tinha certeza do que esperar. Ele ia ser dogmático, com um firewall mental que bloqueia qualquer evidência que vá contra suas crenças? Ou ele ficaria contente em falar?

 

Dawkins devidamente atendeu ao chamado. O diretor, Russell Barnes, pediu-nos para ficar de frente um para o outro; nós fomos filmados com uma câmera portátil. Dawkins começou dizendo que acreditava que provavelmente concordamos sobre muitas coisas, 'mas o que me preocupa é que você está disposto a acreditar em quase tudo. A Ciência deve basear-se num número mínimo de crenças.'

 

Eu concordei que tínhamos muito em comum, 'mas o que me preocupa é que você age como dogmático, dando às pessoas uma má impressão da Ciência, dissuadindo-os'.

 

Em seguida, Dawkins disse que em um espírito romântico ele mesmo gostaria de acreditar na telepatia, mas não havia nenhuma evidência para ela. Ele descartou todas as pesquisas sobre o assunto, sem entrar em detalhes. Ele disse que, se ela realmente ocorresse, as leis da física virariam de cabeça para baixo' e acrescentou, 'alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias...' '

 

Isso depende do que você considera como extraordinário', respondi. ' A maioria das pessoas diz que vivenciou a telepatia, especialmente em relação a chamadas telefônicas [aqui Sheldrake se refere aos testes de telepatia ao telefone, ou seja, quando os atendentes, sem qualquer mecanismo inferencial, sabem quem está ligando, antes mesmo de atender a ligação. Esses estudos serão posteriormente colocados no capítulo sobre telepatia]. Nesse sentido, a telepatia é ordinária. A alegação de que a maioria das pessoas está iludida sobre sua própria experiência é que é extraordinária. Onde está a evidência extraordinária para isso?' Ele não poderia produzir absolutamente qualquer evidência, além de argumentos genéricos sobre a falibilidade do julgamento humano. Ele tomou como certo que as pessoas querem acreditar 'no paranormal' por causa do otimismo exagerado.

 

Então concordamos que experimentos controlados eram necessários. Eu disse que foi por isso que eu realmente tinha feito tais experimentos, incluindo testes para descobrir se as pessoas realmente poderiam dizer quem estava ligando ao telefone quando o chamador era selecionado aleatoriamente. Na semana anterior, eu tinha enviado a Dawkins cópias de alguns dos meus trabalhos em revistas científicas, para que ele pudesse examinar os dados antes de nos encontrarmos. Eu sugeri que nós realmente discutíssemos as evidências. Ele parecia desconfortável e disse, 'não quero discutir a evidência'. 

 

'Por que não?' Eu perguntei.

 

Ele respondeu: ‘não há tempo. É muito complicado. E isso não é o que este programa trata’. A câmera parou. O diretor confirmou que ele, também, não estava interessado na evidência. O filme que ele estava fazendo era sobre outra polêmica de Dawkins contra crenças irracionais. Eu disse, ‘se você está tratando a telepatia como uma crença irracional, certamente a evidência sobre se ela existe ou não é essencial para a discussão. Se a telepatia ocorre, não é irracional acreditar nela. Eu pensava que era isso o que iriamos falar. Eu deixei claro desde o início que eu não estava interessado em participar de outro exercício de desmistificação de baixo nível’. Dawkins respondeu, ‘isso não é um exercício de desmistificação de baixo nível; é um exercício de desmistificação de primeira qualidade’. Eu disse que estava seguro que era para ser uma discussão científica equilibrada sobre evidências. Russell Barnes pediu para ver os e-mails que recebi de sua assistente. Ele os leu com um claro desânimo e disse que a garantia que ela tinha me dado estava errada. Nesse caso, eu disse, visitaram-me sob falsas pretensões. A equipe fez as malas e saiu. A série, exibida em 2007, chamava-se Enemies of Reason [Inimigos da Razão].

 

Richard Dawkins tem há muito tempo proclamado, ‘o paranormal é uma tolice. Aqueles que tentam vendê-lo para nós são enganadores e charlatães’. Enemies of Reason foi destinada a popularizar essa crença. Mas sua cruzada realmente promove o Entendimento Público da Ciência, o qual ele foi professor em Oxford? A ciência deve ser um sistema de crenças fundamentalista? Ou deve ser baseada no inquérito de mente aberta para o desconhecido? Em nenhum outro campo do esforço científico pessoas inteligentes ficam à vontade para fazer afirmações públicas com base no preconceito e na ignorância. Ninguém iria denunciar pesquisa em físico-química, enquanto nada sabe sobre o assunto. Ainda em relação aos fenômenos psíquicos, materialistas compromissados sentem-se livres para ignorar as evidências e se comportarem irracional e não-cientificamente enquanto alegam falar em nome da ciência e da razão. Eles abusam da autoridade da ciência e conduzem o racionalismo ao descrédito.  

 

Que diferença isso faz?

 

Terminando o tabu contra os fenômenos psíquicos haveria um efeito libertador na ciência – Diz Sheldrake. E continua:

 

Os cientistas não mais sentiriam a necessidade de fingir que esses fenômenos são impossíveis. A palavra 'ceticismo' ficaria livre de sua associação com a negação dogmática. As pessoas se sentiriam livres para falar abertamente sobre suas próprias experiências. Pesquisas com mente-aberta seriam capazes de serem realizadas dentro de universidades e instituições científicas, e algumas dessas pesquisas poderiam ser aplicadas de uma forma útil...O financiamento público para a pesquisa psíquica e para a parapsicologia poderia refletir o grande interesse nessas áreas de investigação e aumentar o interesse do público na ciência. O sistema educacional estaria livre para ensinar os alunos sobre a pesquisa psíquica em vez de ignorar ou rejeitá-la. Os antropólogos ficariam livres do tabu que os impede de estudar habilidades psíquicas as quais podem ser melhor desenvolvidas nas sociedades tradicionais do que em nossa. Acima de tudo, a pesquisa sobre esses fenômenos contribui para uma compreensão maior e mais abrangente da natureza da mente, dos laços sociais, do tempo e da causalidade.