Telepatia mediada pelos sonhos

 

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O significado oculto dos sonhos era um assunto de especulação entre os sábios desde o primeiro período na história da civilização. As escrituras na Babilônia e no Egito, até certo ponto, desenharam os métodos pelos quais os homens sábios daqueles países prediziam o futuro por visões percebidas durante o sono; e artigos que abordaram outros países incluem dados relativos a sonhos e doutrina dos sonhos. Essas escrituras discursam algumas das teorias mais notáveis da Antiguidade relativas à natureza e às causas dos sonhos e à maneira em que os profetas antigos geralmente os interpretavam.

 

Os sonhos eram considerados a partir de dois tipos - falso e verdadeiro, em ambos os casos eles emanam de uma inteligência sobrenatural, má ou boa. O sono era considerado como uma segunda vida para os antigos, uma vida na qual a alma estava livre do corpo e era então muito mais ativa do que durante o estado de vigília. As ações nele observadas e as cenas eram imaginadas como se fossem uma porta para uma vida futura do sonhador, mas também se acredita que a vida do sonho era considerada como sobrenatural e "invertida", e os eventos que o espírito desincorporado via eram os opostos daqueles que iriam mais tarde acontecer no plano terrestre.

 

Uma crença na característica premonitória dos sonhos emergiu e suas causas e natureza ocuparam algumas das maiores mentes da Antiguidade. Aristóteles, por exemplo, acreditava que essa característica surgia apenas de causas naturais. Posidônio, o Estóico, era da opinião que existiam três espécies: as primeiras eram automáticas e vinham da visão clara da alma, a segunda do espírito e a terceira de Deus. Cratippus, Demócrito, e Pitágoras desenvolveram doutrinas quase idênticas a esta ou diferenciando-se apenas em detalhes. Mais tarde, Macrobius dividiu sonhos em cinco tipos: o sonho, a visão, o sonho ocular, o insomnium e o fantasma. O primeiro era uma representação figurativa e misteriosa que exigia uma interpretação; o segundo era uma representação exata de um evento futuro durante o sono; o terceiro era um sonho representando algum sacerdote ou divindade que contava ao sonhador coisas que estavam para vir; o quarto era um sonho comum, não merecendo atenção; e o quinto era um sonho perturbador, mas meio acordado, uma espécie de pesadelo. Outros escritores dividiam os sonhos em sonhos acidentais e aqueles induzidos para propósitos de premonição. Heródoto escreveu que no templo de Bel, na Babilônia, uma sacerdotisa deita numa cama de pele de carneiro pronta para sonhar em busca de uma premonição. Os antigos hebreus obtinham tais sonhos sobre tumbas. Acredita-se que os sonhos sejam tão bem sucedidos quanto à hipnose e a outros métodos para alcançar um mundo sobrenatural e ouvir seus pronunciamentos (Encyclopedia of Occultism & Parapsychology, 2000).

 

De acordo com Hartmann, o sonho cientificamente é visto como um estado alterado de consciência (EAC) natural, comumente associado ao rápido movimento dos olhos (REM) durante o sono, representando 25% do tempo do sono humano. Entre os mais concomitantes fisiológicos do sono estão o padrão EEG de voltagem baixa e a frequência mista, movimentos conjugados e rápido movimento dos olhos (REMs), diminuição do tônus muscular, variação do pulso e da respiração e ereção do pênis (Beloff, 1976).

 

Conforme mencionado, o sonho sempre esteve historicamente correlacionado a casos anedóticos de percepção extrassensorial (PES), principalmente premonitórios e telepáticos. Num levantamento feito por Rhine em 1962, 65% dos casos espontâneos de PES são alegadamente ocorridos durante o sono. A fim de investigar todo o material popular, pesquisadores debruçam-se nessa empreitada desde a década de 1960 (Krippner, Ullman, Feldstein, Hall, Honorton, Globus, Van de Castle, Belvedere, Foulkes e outros). Os resultados laboratoriais têm demonstrado um efeito que, embora relativamente pequeno, mas por sua absurda persistência torna avassaladora a evidência de percepção anômala durante os sonhos.

 

Experimentos psi durante o sono podem ser assim resumidos: um participante, dito receptor, fica isolado, dormindo numa câmara protegida acusticamente e contra radiações eletromagnéticas. Com eletrodos na cabeça, as ondas cerebrais e o movimento dos olhos dele são monitorados, com o objetivo de se detectar períodos de sonho. Numa outra sala, de distâncias variadas de onde está o receptor, um agente, chamado emissor, abre um envelope selado contendo uma imagem, tirada de um conjunto fechado de 8 a 12 fotografias. A missão do emissor é influenciar mentalmente o receptor, transmitindo-lhe a imagem contida no envelope. Ao se constatar nos sinais eletrofisiológicos que o receptor parou de sonhar, um técnico acorda-o e pede que descreva as impressões que tivera durante o sonho. O relato é gravado e, para uma mesma noite, o receptor é novamente colocado para dormir, a fim de realizar novos esforços, cerca de 3 a 6 vezes sobre aquela mesma imagem "enviada" pelo emissor. Posteriormente, juízes independentes e “cegos” (i.e., sem conhecimento da figura-alvo usada para aquela noite) examinam a transcrição do áudio, e, usando-a como guia na busca de identificar a imagem-alvo, ordenam 8 ou 12 fotografias, dentre as quais uma delas é o alvo, sendo as demais imagens-iscas. Se a imagem-alvo fosse classificada na metade superior (1ª a 4ª ou 1ª a 6ª), a experiência era um sucesso, se na metade inferior (5ª a 8ª ou 7ª a 12ª), ela era um fracasso. Se o acaso fosse a explicação, a imagem-alvo flutuaria em ser classificada em 50% das vezes como sucesso ou como fracasso.

 

Os psicólogos Simon Sherwood e Chris Roe (Alcock, J; Burns, J; e Freeman, 2003) identificaram 47 experiências, entre 1966 e 2004, envolvendo um total de 1.270 tentativas. A taxa de acertos média era de 59,1%, dos quais 50% poderiam ser esperados pelo acaso. O aumento de 9,1% sobre a pura sorte está relacionado a probabilidade contrária ao acaso na ordem de 22 bilhões para 1 (Radin, 2008). O reporte seletivo (efeito filedrawer) basicamente preconiza que poderia haver estudos com resultados negativos e não publicados os quais, se considerados na meta-análise, baixariam a probabilidade para dentro dos limites do acaso. Uma maneira de se verificar a validade desse argumento é calcular quantos experimentos nulos e não publicados deveriam existir para reduzir a taxa de acertos à expectativa de mera sorte, e assim analisar se a quantidade deles seria razoável de acontecer, ou então, se acharíamos um número extremamente elevado que não seria plausível argumentar que foram "escondidos". No caso de PES e sonhos, seriam necessárias 700 experiências negativas ocultadas. Cada experiência tem em média 27 sessões. 700 x 27 = 18.900 sessões. Cada sessão dura uma noite, o que equivaleria a 50 anos de estudos suprimidos (Radin, 2006), tornando a possibilidade de reporte seletivo absurdamente inverossímil.

 

A possibilidade de os estudos iniciais terem sido mal projetados igualmente não deve prosperar. O aumento na qualidade dos estudos ao longo dos anos não alterou de maneira significativa a taxa de acertos dos estudos mais antigos, sinalizando que, desde os primeiros experimentos, os pesquisadores tomaram bastante cuidado contra pistas sensoriais e vieses de expectativa.